É “fait maison”?!

Neste postal: os franceses, uma enquete polocial e sua (boa) obsessão pelo tal ‘fait maison’.

bouche de noel

Minha primeira Bouche de Noël. Que desgosto: não era fait maison! Foto: Camila Marquim.

Fazia quase 1 ano que eu tinha chegado e era natal… Aí estou eu bem linda vendo TV quando observo que o próximo programa era uma espécie de enquete policial, com câmera escondida e tudo! Pensei: eitaaaa, agora vou ver sangue!

Uma revelação: não é ‘fait maison‘!

Era uma enquete pra descobrir algo totalmente fundamental pros franceses: se uma das sobremesas tradicionais de natal deles, a bouche de Noël, era ‘fait maison’ como as padarias escreviam nas vitrines. Eu j-u-r-o!!!

Tinha câmera escondida, o repórter perguntando ao atendente (com aquele efeito que deixa o rosto embaçado, conforme manda o figurino) se era ‘fait maison’. Depois eles iam nos fundos e viam caminhões descarregando as Bouches de Noël já prontinhas. Achei muita graça naquilo. Precisava disso tudo, gente?! Precisava…

O fait maison é sempre melhor!

Tudo que é industrializado tem menos valor do que o artesanalmente feito por aqui. Fait maison quer dizer algo do tipo: feito na casa. Eles acham que o ‘fait maison’ sempre será de melhor qualidade.

Eu não tenho paladar pra julgar a comida francesa e opinar se realmente é melhor. Mas uma grande vantagem essa cultura do ‘fait maison’ tem: ela valoriza o pequeno empresário, o chef de cozinha, o chef de chocolate (eu traduzindo mal e porcamente ‘maître chocolatier’), enfim o cara que rala pra fazer algo.

No Brasil costuma ser exatamente o contrário em alguns casos como no chocolate, por exemplo…

Um chocolate de qualité

Eu já tinha observado o fenômeno do ‘fait maison’ no Natal, mas esse ano na páscoa foi a mesma coisa. Minha empresa distribuiu mimosos ovos de chocolate para seus funcionários. Não era nada de marca famosa: era de um maître chocolatier do bairro onde a empresa fica. E eu que não manjo nada do assunto ganhei meu chocolate e achei legal e gostoso. Ponto!

caixa páscoa

Manhêê, ganhei um chocolate de qualidade! PS: óbvio que na foto só está a caixa, o ovo que tinha dentro já foi faz tempo… Foto: Camila Marquim.

Mas vocês precisavam ver os colegas do trabalho se derramando em mil elogios ao chocolate. E disseram: é um chocolate de qualité, Camilá!

(É, por essas bandas meu nome é pronunciado com um acento no último A, como já contei aqui em Crise Existencial)

E aí foi que atentei: aqui o legal não é ganhar um Ferrero Rocher ou um chocolate da Lindt. Marcas que são excelentes e que no Brasil fazem as pessoas gastar empequenas fortunas nas páscoa. Aqui o chique é ganhar algo que é fait maison. E pra informação: esses chocolates de “chocolateiros” famosos, podem chegar facilmente à casa dos 30 euros, um ovinho de nada… Vá fazendo as contas…

Cada povo com seus sistemas de valores, né?!

Atualização em 01/06/2016: e esse postal expat já estava pronto quando ontem eu ouvi uma colega de curso dizendo que ia receber uns amigos em casa e queria dicas sobre o que cozinhar. Eis que uma das sugestões de uma das francesas da conversa foi: por que não uns hamburgers fait maison? Caí na gargalhada. E a anfitriã aceitou a sugestão e disse que ia fazer uns bons hamburgers fait maison!

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7 Resultados

  1. Sandra Marquim disse:

    Interessante como aqui somos influenciados pela mídia, isso justifica o alto investimento das grandes empresas em marketing.

    • camila disse:

      Certamente tem essa influência sim no Brasil, mas aqui o buraco é ainda mais embaixo:
      eles adoram cozinhar, então… Tudo que é cozinhado seja num restaurante, seja em casa pela pessoa é sempre mais valorizado.

  2. Cristiane disse:

    Que bacana essa atitude dos Franceses. Aqui é justamente ao contrário !! Ninguém dá valor para os pequenos. Aqui só querem MARCA famosa…muito triste isso…

  3. fps3000 disse:

    Cada um, cada um … aqui é justamente o contrário, principalmente entre os mais pobres: se é uma coisa “feita em casa”, reclamam bastante.

    • camila disse:

      Acho que a cultura brasileira não é muito receptiva de uma forma geral ao que é feito artesanalmente, independente da classe social das pessoas.