Mais 10 coisas que descobri morando na França.

Pra quem é novo no pedaço. Me mudei pra Paris em dezembro de 2013 e vocês não sabem o tanto de coisas que se aprende quando a gente se muda. Bem, a saga da minha coletânea de descobertas começou no:

10 coisas que eu descobri morando na França.

Agora ela continua, com as novidades gastronômicas, sociológicas e as loucuras mesmo da minha cabeça. Descobrindo novidades sobre as diferenças entre França e Brasil, c‘est parti! (algo como: ‘vamos lá’)

11. O doce mais doce que o doce da batata-doce?

Fui no mercado e encontro o oásis: lá estão as sobremesas congeladas. Nas embalagens, cada foto mais linda que a outra! Não resisti: comprei. Chegando em casa… Que decepção. O troço tinha cara de ser uma delícia, mas quando ponho o primeiro pedacinho na boca, não era doce! E assim tem sido, rigorosamente, com todo doce que como! Não é DOCE de verdade! Não que sejam ruins os doces franceses, mas eles são tudo, menos doces pra mim!

Conversando com outros amigos brasileiros, o tópico foi unanimidade: doce na França não é doce! Bolo de chocolate não é muito doce, os doces lindíssimos também poderiam ter mais 2 colheres de açúcar ou leite condensado. A teoria é que a ‘cuisine française’ acha que os gostos muito fortes não são saborosos. Bem, eu sinto falta daquele bolo beeem docinho com 3 camadas de recheio, feito preferencialmente com nosso amigo de toda TPM: leite condensado!

12. Menos Europa do que nunca.

Eu esperava encontrar um tantão considerável de Alemanha, de Espanha e de Itália por aqui. Afinal, são os países que estão grudados com a França. Mas vejam só a ironia… O que não é francês aqui ou é africano ou vindo do Oriente Médio. A maioria das referências que recebo e percebo na cultura francesa, vem de uma comparação da França com: Algéria, Marrocos, Tunísia e Arábia Saudita, Turquia…

globos

Como o mundo é pequeno nunca fez tanto sentido pra mim. Foto: Camila Marquim.

Sério, nunca aprendi tanto de História do Oriente Médio e África “do norte” quanto aqui (não a África não é toda uma coisa só, amigão). Entendi a posição da Síria, Líbia e Turquia no conflito israelenses X palestinos. Descobri que a Algéria foi colônia francesa e que trocou de língua oficial há pouco tempo trazendo uma enorme confusão pra vida dos cidadãos que, de uma hora pra outra, tiveram de trocar de nome (avalie as escritas diferentes e os erros em documentos oficiais).

Pra vocês terem uma ideia como a coisa é forte aqui: a única comida tão celebrada quanto a francesa é o tal do cuscuz marroquino (que, by the way, não gostei), eles adoram e nem é francês!

13. O belga é o “Manueeel da Padaria”.

A gente se acha o máááximo e super original porque faz piadas com os pUUUURRRtugueses, né? ‘Apois’ cada país gosta de tirar onda com um vizinho (estranho é a gente tirar onda com um que tá tão longe). E sempre é dizendo que os nativos daquele país são mais alesados que nós. Aqui, com os franceses, a tiração de onda e as piadas são com os belgas.

E nem preciso contar uma piada de belga. É só você pegar sua piada de português favorita e trocar o Manueeelll da Padaria pelo belga e… voilà! Piada pronta!

14. Primavera é a estação das…

primavera

As flores por todos os parques. Essa aqui estavam no Jardim de Luxemburgo. Foto: Camila Marquim.

Minha gente, nunca entedia bem essa coisa de estação. Lá em Recife a gente costuma dizer que só tem o ‘verão’ e o ‘inferno’. Mas aqui a coisa rola de verdade e nem preciso dizer à vocês que, mal dona primavera deu as caras, já tinha florzinha por tudo lado, tudo verdinho!

Mas nem só de flores vive a primavera: é um tal de pólen (nordestino sabe nem o que é isso!) pra tudo que é lado. Tem dias que eu juro que parece que tem neve caindo: cai umas coisas branquinhas do céu. Sei lá de onde elas vem, porque eu não vejo flor por perto. Mas esses trocinhos brancos caem aos montes!

15. Metódico, o francês?! ‘Magiiiina!’

Jesus, Maria, José e a manjedoura ( não se diz só Jesus, chama a família toda logo+manjedoura!), é impressionante. Se o garçom tem 5 copos, TODOS IGUAIS, mas ele decidiu que o SEU é aquele que ele está te dando, não invente de dar o seu pra outra pessoa. Eles ficam perdidinhos!

Quer tirar um francês do sério? Faça as coisas de um jeito diferente do dele e mais rápido que ele. Eles costumam ficar visivelmente atrapalhados e perturbados quando alguém interfere na organização deles. Faça a conta mais rápido que o garçom, conte dinheiro de uma forma diferente, dê papéis/objetos/faça pedidos na ordem diferente da que eles estabeleceram. Pronto, a confusão está posta!

Eles são bem metódicos e não conseguem raciocinar de um jeito diferente do deles. Se você faz uma sugestão, eles invariavelmente não a aceitam e continuam fazendo do jeito deles. Isso dá um graaande choque cultural com brasileiro: metodismo não costuma ser nosso forte, e a gente adoora fazer as coisas de um jeito diferente.

Falando nisso… Me lembrei de outra coisa que aprendi aqui!

16. Calme toi!

Era bem comum eu chegar num lugar e precisar pedir informações. Eu via a pessoa das informações sozinha e lá ia toda serelepe gastar meu francês. Chegava, tacava um ‘bonjour’ e desatava a falar. O cidadão, que estava fazendo algo, nem olhava na minha cara! Eu ficava moooito p… da vida, viu?

Depois que eu tinha falado um mooonte, sem resposta, ele olhava pra mim (só após ter terminado o que estava fazendo com os olhos grudados na tela do computador) e perguntava o que eu queria. Lá ia eu repetir tuuuudo de novo, que nem uma alesada! Que ódio que me dava!

Não nasci de 7 meses, mas sempre fui a agonia em pessoa e se via o ser humano ali sem ninguém achava que ele estava à minha disposição. Hoje, quando analiso a situação, acho até que era uma falta de educação minha, mas no Brasil, no máximo, alguém diria pra esperar, não me ignorar e pronto. Foi a forma mais eficaz de me educar! kakakakakak

Mas vou me defender: no Brasil muitas vezes você espera horrores e as pessoas te deixam ali no banho-maria. Não é incomum você ser ‘esquecido’. Por isso que a gente tem a mania de ficar no pé dos atendentes, né não?

Aqui aprendi a contar até 10 (20 se necessário): franceses não te dão atenção até eles olharem pra vocês. Você pode estar dançando o ‘é o tchan no Havaí’ na frente deles ou morrendo, não importa. Não invente de começar a falar com eles antes que eles te olhem, te chamem, que haja um sinal de que eles estão prontos pra te escutar. Eles te ignoram lindamente antes disso!

O olhar pra você é o sinal de que você foi autorizado a dirigir a palavra. Antes disso é perda de tempo.

17. Vamos à Prefeitura?

Cada ‘bairro’ (arrondissement, como é chamado aqui) tem sua prefeitura e seu prefeito. E ela serve para um sem fim de coisas.

Quer reclamar? Prefeitura. Saber os eventos culturais do bairro? Prefeitura. Tirar certidões de moradia, casamento? Prefeitura (inclusive eu tô achando – mas é só achismo meu – que aqui não existem cartórios, ou eles tem uma função bem específica). Quer saber qual a piscina pública mais próxima? Prefeitura. Curso de línguas público? Prefeitura. Tudo é na prefeitura do seu bairro!

Dá primeira vez que me mandaram lá, eu quase entro em pânico. Pensei: putz, tem de ir na Prefeitura?!?!?!

Você chega lá (sempre é perto da sua casa, justo porque os arrondissemnets são pequenos) e rapidamente é atendido, não tem esse sentimento de: “Ai, lá vou eu… Deseje-me sorte!”. É algo muito próximo do cidadão.

Não vou nem entrar no mérito do sistema administrativo francês porque é tanta diferença e eu ainda não o conheço bem… O que digo é: os arrondissements são poucos e pequenos (só tem 20 em Paris, como falei aqui: conheça a geografia de Paris), e esse esquema de 1 prefeitura pra cada um deles, me parece bem mais fácil de gerir as coisas.

18. Cortando o queijo francês.

Minha gente, esse item é fundamental e eu era ignorante no assunto! Eu ri muito quando descobri que existe jeito até pra cortar os danados dos queijos (não falei que eles eram metódicos?!) porque ficava visualizando todos os que estavam na minha geladeira cortados de qualquer jeito. Mas, creiam, existem técnicas!

queijo francês

Alguns tipos de queijos. Reparem que eu já havia cortado do roquefort todo errado. Kkakakaak. Foto: Camila Marquim.

Tudo vai depender do formato do queijo, esse é o segredo ‘prum’ queijo bem cortado! Tem queijo que é redondo, tem queijo quadrado, retangular, estilo pirâmide do Egito… Cada formato de queijo se corta de um jeito diferente.

19. O que os franceses fazem no domingo?!

Alternativas:

a) Praia

b) Parque

c) Bibliotecas

d) Caminhadas

e) Jogam tênis

Resposta: La randonnée! Fiquei muito intrigada com isso! Os franceses amam fazer caminhadas, preferencialmente ao ar livre, na ‘campagne” (no campo), como eles dizem. Li no meu livro de francês que é a atividade de LAZER favorita deles. Isso mesmo: não é esporte! É lazer!

Buscando informações sobre como isso surgiu, me disseram que, com a industrialização e o crescimento das cidades, o campo passou a ser mais apreciado e hoje em dia existem muitas empresas especializadas nisso. Você pode alugar um burro pra levar seus pertences, pode contratar serviço de guia… E lá vai um francesinho floresta à dentro pra se divertir em pleno domingo.

20. Qual seu nome?

Não sei se isso é algo francês, europeu ou internacional (e só no Brasil é diferente), mas por aqui o nome que seus pais escolheram pra você não vale de nada!

Tava um dia desses brincando de nome, lugar, objeto. Sabe aquela brincadeira boba?! Pois ela me fez aprender à duras penas (e pontos perdidos no jogo!) que o que vale ‘mermo’ na França é o seu sobrenome.

Tipo assim: Edith Piaf. Pros franceses o nome dela é Piaf. No jogo não vale escrever na letra “E” “Edith”. Na minha cabeça sempre foi muito lógico: o que individualiza, identifica você é o seu nome. Mas aqui a lógica é o contrário. E não importa o quanto eu diga que tenho 2 irmãos com o mesmíssimo sobrenome: meu nome é Pontes Tralálálá.

Se tem uma fila pros nomes de A a L e outra de M a Z, nunquinha que me acostumo que eu (Camila Pontes de tralálálá…) não devo estar na de A-L. Vocês não avaliam como isso interfere no meu cotidiano! É uma verdadeira crise de identidade.

Só pra aprofundar mais o tema…

Os franceses tem apenas 1 sobrenome (do pai) pelo que entendi. Então, por exemplo, a pessoa é:

 GARNIER,Louise

(e é assim que eles costumam escrever seus nomes, com o sobrenome na frente)

O nome “Garnier” é o sobrenome e essa menina, Louise, só vai ter ele. Bem econômico, né?! Se um dia ela casar ela troca de sobrenome. Suponhamos que ela se casa com o Monsieur Moreau (pouco importa o nome do rapaz, lembra?). Aí quando Louise morrer (aprendi isso quando fui no cemitério, falando nele: veja aqui como foi) vai ter escrito no túmulo dela algo como:

“Louise Moreau,

nascida Garnier.”

Pode ser que já exista na lei francesa algo mais recente e eu esteja falando besteira pra vocês, mas é só pra mostrar como é a maioria dos nomes aqui. Bem diferente da gente, né?

 Aí vocês me perguntam?! Tem mais coisas que são bem diferentes/atípicas pra gente que é brasileiro aí na França? Um mooonte, bien sûr! Acho que ainda rende mais uns postais contando as minhas observações sobre a vida na terra dos queijos e vinhos.

Até lá.

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18 Resultados

  1. elzirene disse:

    Oi Camila
    Cheguei aqui domingo,e o que mas quero e saber falar logo a língua… RS
    Casei com um frances que fala português muito bem,mas eu quero aprender logo,tem dicas?obrigada beijos

  2. Camila Rodrigo disse:

    Oláá chará! eu e meu esposo sonhamos dia e noite com a nossa ida pra morar em Paris…em 2013 fomos a passeio e nos apaixonamos pela cidade. ahh, eu ameeei seu blog e o jeito como vc escreve, da pra imaginar direitinho as emoçoes e dia dia dai..hehe ah, uma coisa que eu queria saber e se foi dificil conseguir a documentaçao tipo vistos e tal…e se tbm foi dificil arranjar emprego por ai… bjsss

  3. Cíntia Sales disse:

    Camila adorei encontrar seu blog!!!! É uma delícia seu jeito de escrever, principalmente pela presença do jeitinho recifense, adorando tudo! Sou recifense recém chegada na França, estou aqui há 18 dias e ficarei aqui por três anos, não conhecia nadinha e eu e minha família estamos nessa ralação inicial de adaptação. Até agora o que eu achei estranho são essas nomenclaturas de T3, T4, T5 para as casas, o fato do vaso sanitário ficar separado da pia e do chuveiro (muito bizarro), o fato de não ter lixo nos banheiros, nem ralos e ausência de área de serviço nas casas. No super mercado todo dia é uma descoberta de produtos mas até agora não achamos leite em pó, nem feijão, kkkkkkkk. Estou cheias de dúvidas em relação a essas diferenças com o Brasil se você puder nos ajudar agradeço imensamente.

    • camila disse:

      Oi Cintia!

      A disposiçao dos cômodos realmente é bem diferente, mas com o tempo você acostuma que nem sente mais tanto a diferença. Feijao é algo que você provavelmente algo que você encontra num mercadinho de bairro ou em redes como Casino, num grande supermercado. Fica tranquila que com o tempo você vai se encontrando. Eh porque você esta bem no comecinho, curte muito essa fase porque passa, viu?! Quando você perceber, ja vai estar se integrando e tudo fica mais facil. ;)

  4. Renato Bardi disse:

    Camila, no mundo corporativo nós também nos chamamos pelo sobrenome, sejam em empresas francesas, americanas, alemãs, etc.

    Abs,

    Bardy

  5. Sara disse:

    haha adorei o 16. eu sou meio agoniada tb e percebi isso nas minhas duas semanas na França.. no inicio eu ficava um pouco desconcertada, mas depois acabei não ligando pois via que não era pessoal kk

    • camila disse:

      Nem me fale que eu sou a agonia em pessoa! Já fiquei muito “no vácuo” como se diz porque a pessoa simplesmente me ignorava, Sara! kakakaka Mas a gente rapidinho se acostuma, né?! :P
      Beijão!

  6. Gostei muito do postal, Camila! Muito interessante aprender estas diferenças! Beijinhos! :-)

  7. Eu nunca fui de doce, até que descobri os doces franceses e hoje infelizmente sou fã… Tenho a impressão que os doces brasileiros realmente só tem açucar, leite condensado e ovos…
    Sobre os nomes, na verdade não se “troca” ao casar, na carteira de identidade sempre tem os 2, mas é de usagem usar o do marido. Não é como no Brasil que precisa refazer toda a papelada. Aqui as pessoas (geralmente) só tem um sobrenome como você disse, mas podem ter diversos nomes!!! Eles não tem importância nenhuma no dia a dia (mas estão na carteira de identidade), mas serve como diferenciação. A criatura pode se chamar Louise, Marie, Juliette, Nathalie, Brigitte GARNIER.
    Bom, tem gente que costuma começar com o sobrenome e colocar o nome, como vc disse, mas pouco importa a ordem (e eu vejo bem mais a fórmula nome+sobrenome), mas o sobrenome é de usagem escrito em maiúsculo. Por exemplo, Louise GARNIER.

    • camila disse:

      Oi Milena,
      Eu tô me adaptando aos doces franceses. Aos poucos a gente vai acostumando, né? Só as tortas de limão (as brasileiras eu amo!) que não consigo: as francesas são muito amargas! Kakakakak
      Obrigada pelas informações sobre a questão dos nomes. Vou colocar lá no topo a observação. ;)
      Abração! :*

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